sexta-feira, 22 de julho de 2011

Vodka com Chaplin - parte 1

John acorda atônito, e ao mesmo tempo incapaz de se mover na rija cama onde deitava. Abriu os olhos e contemplou o teto descascado e com infiltrações. Olha para o lado direito e vê uma cômoda com uma gaveta aberta. Sua visão ainda estava turva, mas conseguia definir algo do que conseguir visualizar. Supostamente o quarto era de uma mulher, dada à calcinha pendurada no pegador da gaveta. Vira a cabeça para a frente e pára, assustado e ao mesmo tempo familiarizado com o quadro O Garoto, de Chaplin, mestre que tanto amava. John jamais havia notado a rispidez do olhar de Chaplin nesta obra, e agora um certo receio lhe tomava as têmporas por se sentir ameaçado por este olhar.

O que lhe faz perder o foco do quadro é a suave voz feminina que vem de outra peça da casa, ou de que qualquer lugar que fosse.

Close your eyes and I'll kiss you

Tomorrow I'll miss you

Remember I'll always be true…

Quando começava a balançar o pé direito sobre a coberta no ritmo da canção, outro susto. A dona da voz, extremamente alegre, abre a porta fazendo muito barulho e lhe traz dois pedaços de pão de forma e uma xícara de chá que lembrava muito uma que sua avó tinha em casa. Sem resistência e com uma fome absurda, ele morde o pão (seco e duro) e bebe um gole do chá (frio e extremamente doce), mas não reclama. A cabeça ainda era um carrossel de sombras e sons indefinidos. Depois olha nos olhos azuis da bela loira que o assiste matar a fome e tenta se lembrar da noite passada, inutilmente. Basta forçar um pouco mais a memória para sentir uma forte dor nas têmporas e decidir que tem que ir embora. De um salto, se põe sentado na cama e procura sua roupa, também inutilmente. Ele começa a se desculpar.

- Perdão, mas eu não sei o que estou fazendo aqui. Eu bebi demais, mas preciso ir pra Chicago essa tarde e...

- Chicago? (risos) Vai demorar pra isso acontecer de novo...

- Como assim? Onde estou? Onde estão minhas roupas? Que sotaque é esse? (tambores rufando, ele aponta pra janela) O QUE É ISSO?!

Não precisou ela responder nada. Em um súbito, ele corre para a janela e desvenda a cortina, mas a neblina e o vidro embaçado o impediram de se localizar. Ele abre rapidamente a janela e sente dois choques: um térmico ao sentir o vento gelado em seu peito nu, e outro ao ver a imponente construção que se erguia após os prédios de meia altura. Os tambores rufavam muito mais alto agora. Havia uma grande movimentação nas ruas. Pessoas juntas e bastante enroupadas caminhavam em uma única direção, exatamente de onde John, apavorado, não conseguia tirar seus olhos.

O Kremlin.

terça-feira, 8 de março de 2011

A firula que nos salva.

Um ato estranho de "ser brasileiro" (ou do "ser" brasileiro) é encontrar sempre defeitos na nossa nação. Todos os habitantes desta colônia parecem ser super informados, antenados e com cultura de um déspota esclarecido, e usam desta imaginada clareza para detonar a própria terra. Não me excluo desta lista. Comparo Brasil com Europa, América Latina, Estados Unidos, África, Ásia e Cachoeirinha. Acho defeitos entre o carnaval e o congresso (comparo como se fossem opostos).

Mas se temos todo esse senso crítico, porque os pontos achados nesse jogo de mil erros não são sanados? Simples, os defeitos são todos nossos. O pior de todos - ao lado de não corrigir a própria falta - é não priorizar o básico, e sim pensar direto no "professional", mesmo atracados no "beginning". Ou se fica estagnado onde está, no pé da escada, ou se deseja voar até o alto, pulando de dois em dois ou até de três em três degraus até o topo. É quase inadmissível imaginar que nós teremos forças pra chegar rapidamente ao cume, e ao mesmo tempo esquecer que, se tivéssemos realmente tal capacidade, não estaríamos no chão do mundo há tanto tempo.

Um exemplo bem claro dessa contradição são as paixões brasileiras: o futebol e o carnaval. Nos detemos na Marquês de Sapucaí, pelos acontecimentos recentes. Como a TV aberta está cada vez mais impossível (mais um erro detectado), me detive na transmissão do carnaval carioca. A Salgueiro, tradicionalíssima escola, patinava no asfalto com a destreza de um ballet. Desfile impecável, criatividade no enredo, no samba, nas fantasias e nas alegorias. A minha vontade era parabenizar pessoalmente o carnavalesco. Mas o tempo escorria na madrugada, chegava no fim, e metade da escola ainda na avenida. No fim, aquela festa extremamente criativa se tornava um filme de terror na Praça da Apoteóse. Gritos, empurrões, correrias, uma alegoria quebrada e outra incendiada. O caos formado na festa. Dez minutos de atraso e pontos perdidos na disputa. Lágrimas, discussões e exaltações. Sobrou até para a repórter da tv que estava cobrindo o fim dos desfiles. Mau planejamento, erro primordial. Assistindo esta tristeza transmitida em rede nacional, tentei evitar as comparações. Não evitei o inevitável.

Em um carnaval do Velho Mundo, com escolas de samba europeias desfilando na Champs-Élysées, automaticamente temos outra visão, seguindo a velha teoria da comparação. Talvez os gringos não teriam tanta criatividade e os sambas sairiam toscos, mas podem acreditar que a efetividade para as coisas acontecerem, esta sim eles teriam. Carros alegóricos quebrados? Um a cada 5 anos, com uma instituição idêntica à FIA para inspecioná-los e abrir um processo. Atrasos? Com punições severas e em euros, deixariam de acontecer, até porque todo carnavalesco ensaiaria mil vezes e com rigor militar o tempo do desfile. Barracões? Não. Haveriam verdadeiras escolas, com estruturas anti-incêndio e segurança, e com administradores-sócios de grandes multinacionais. Dinheiro injetado, eficácia nos projetos e eficiência na avenida. Uma adaptação para o carnaval de como conhecemos a Europa.

Se comparamos tanto na teoria, deveríamos ser assim na prática. Ter este faro para administrar nosso país, em todos os sentidos. Mas aqui se prioriza o floreio, o drible e aquele abuso de ter a situação a favor. Já o respeito à regra e a determinação para ser no mínimo eficazes são esquecidos. Aí se faz um lindo desfile, colorido e criativo, e se perde pelo básico (e não como se diz por aí, "no detalhe"). Ou se excede no tempo, ou ainda se faz a alegoria mais bela do mundo, mas se esquece que ela deve andar. Aí ficamos compadecidos, passamos a mão por cima e perdoamos - até porque o desfile foi sensacional, não é?!

Nada acontece, Os erros dos próximos anos serão os mesmos que vimos neste carnaval. Assim a imensa bola de neve de 511 anos desce implacável pela montanha, alimentada pelas firulas que encobrem as falhas fundamentais. E seguiremos apenas comparando e achando erros, todos de braços cruzados.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

QUATRO HORAS DA MANHÃ

Parece ser o horário mais distante do mundo, daqueles que ninguém tem um contato íntimo. Não conheço uma pessoa que tenha uma lembrança marcante de algum acontecimento que tenha ocorrido às quatro da manhã. Só eu. Deve ser por isso que este horário sempre me lembra silêncio e escuridão, mais que qualquer outro momento assistido pela lua.

“Vamos sair às três”, sentenciava o pai. As malas já arrumadas, o carro revisado, tudo em ordem. Eles iam dormir e eu não conseguia, ansioso com a estrada que ia pegar logo em seguida e um pouco irritado com o calor. Quando pensava em dormir, eles acordavam. Entre tomar um café escorados na pia da cozinha e carregar o carro, passávamos das três e meia. Mas quatro horas da manhã já estávamos comendo os primeiros quilômetros da freeway, rumo à casa dos meus avós maternos, no litoral catarinense. O pai gostava de pegar a estrada esta hora. Eu também.

Um walkman Aiwa era o meu parceiro destes momentos. Na mochila, uns 3 pares de pilhas-reservas e fitas do Engenheiros, do Raul e do Pink Floyd, todas herdadas dos meus irmãos. As K7 eram úteis quando as rádios rock decidiam sumir do dial, logo passando Glorinha. Até lá, eu ia saboreando baladas antigas e b-sides das emissoras daqui, olhando pros out-doors iluminados à beira da BR-290. Tenho até hoje a cena na cabeça: escutando Wonderwall (que eu não sabia de que banda era) e olhando a fábrica da Nutrella ficar pra trás. Tranquilidade extrema. Parecia estar do outro lado do muro da vida.

Deste lado do muro, era estranho imaginar como o "meu" mundo viveria por uns dias sem eu por perto. É engraçado pensar assim, remoendo horas sobre o lugar que eu deveria estar naquele momento. Como ele estaria? Logo depois, eu voltava com a cabeça pra estrada. Achava que era pretensão demais imaginar se sentiriam a minha falta. Logo mais, o amanhecer vinha lá do outro lado da Lagoa dos Barros, e chegava a hora de escutar as fitas. A estrada ficava mais movimentada, o barulho aumentava e a luz do sol começava a atrapalhar. Os raros momentos de prazer estavam por acabar.

Há seis ou oito anos atrás, eu vivia isso. Fim do ano não era tensão. Era término de colégio, começo de férias e de tranqüilidade. Passado alguns anos, agora me vejo numa sinuca de bico, engolido pelo sistema, onde tudo é muito confuso, muito nervoso e pra ontem. Na tal "época da reflexão", me sinto no meio de um mundo onde todos preferem não respirar. Em pleno calor, ninguém sequer repara o quão ridículo é nevar em uma vitrine de shopping enquanto o sol frita lá fora. Eu noto. Prefiro o natural, as coisas não forçadas. Sinto saudade de me recostar no banco de trás de um carro e sentir a vida passar pela janela. Largar o ritmo pesado e simplesmente assistir a paisagem. Se eu pudesse reviver este momento, seria o meu milagre de Natal.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Sestiada

Inverno meridional de 2010. A imensa janela que todas as tardes ilumina várias mesas com computadores, inclusive a minha, faz da sala onde eu trabalho um imenso aquário assistido por todos que passam naquela pacata rua do bairro Moinhos de Vento. Em troca, a mesma janela dá aos habitantes deste viveiro humano uma paisagem verdadeiramente inspiradora. A rua vista lá de dentro da sala possuí casas e prédios de poucos andares, que parecem estar ali desde bem antes de eu nascer, visto pela pintura gasta e pelas bases feitas artesanalmente por pedras-ferro. As árvores aparentam estar nas calçadas ao mesmo tempo das moradias, a julgar pelo seu imenso porte e pelo estado do caule. E estas árvores, quando bem-humoradas, decoram as calçadas com suas folhas, e esta cena vai ficar mais bonita quando chegar o fim de setembro e os deuses acharem que já estamos passando frio por tempo demais. Pra completar, o sol de revesgueio, marca registrada dos meses gelados do hemisfério sul, esquenta tudo com a costumeira má vontade do meio do ano.
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Esse cenário me faz lembrar de anos que o meu único compromisso era o colégio e que eu tinha as tardes livres pra fazer o que eu bem entendia - logicamente depois de lavar a louça do almoço. Se não eram os amigos que faziam eu sair de casa, a cama reclamava e pedia atenção. Se insinuava, me pressionava, e eu sem saída me entregava aos seus lencóis até a hora da Malhação. Bons tempos. Mas eu não assistia Malhação. Juro.
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De onde será que eu arranjei toda essa intimidade com a cama, no auge da minha adolescência e com aquele sol lá fora? Creio que herdei do mesmo careca que aprendi a fazer piadas toscas, a assar churrasco e a sorrir quando o mundo desabava. Meu pai.
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Uma das lembranças da nossa convivência diária que tenho (faz um ano e meio que não moramos mais juntos) é do seu sono após o almoço. Clássico era o domingo que eu assistia Fórmula 1 com ele e depois acompanhava seu ritual à frente da churrasqueira, aproveitando para beliscar em pequenas quantidades os melhores mal-passados da minha vida. Ele comandava o fogo e a carne com o sorriso de um Joel Santana. E após aqueles shows com espetos, íamos dar aquela "sestiada", não importava o que houvesse acontecendo. Antes do futebol das 16h na TV, era aquela roncada básica. "Pra descer a carne mais rápido", dizia ele.
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Quando era verão, era legal. Com ele, aprendi a dormir no melhor estilo "mendigo". Pra aguentar aquelas tardes quentes, ele pegava um travesseiro ou uma almofada e atirava no chão cru amadeirado. Ali tava a cama. Deitávamos as costelas no frio parquet, cada um no seu respectivo quarto, e ali éramos feliz por uma hora ou um pouco mais. Quando não fazia tão calor, um tapete se fazia de colchão. Eram dois cachorros dormindo dentro de casa.
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Outra mania que tenho orgulho de ter pegado dele foi a de bocejar aos berros dentro de casa. Aprendi com o seu Jassy que bocejar em silêncio, mesmo sendo má-educação, era sem graça. Então a qualquer hora do dia ou da noite que estávamos dentro de casa, era aquela lamúria que contaminava rápido. O bocejo gritado bem de alto virou uma demonstração explícita de como era bom ter sono e a sorte de estar em casa, à vontade.
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Coincidentemente, tive estas percepções justamente na semana do dia-dos-pais, ainda na dúvida sobre o presente que lhe darei. Pensei em fazer um churrasco com ele, pra depois dar largos e sonoros bocejos e depois dormir na tarde de domingo no chão de sua casa atual. Mas aí isto seria um presente muito mais pra mim do que pro velho. Aí não vale.

domingo, 1 de agosto de 2010

OI, TIO! - décimo capítulo

Herón estava tão sem iniciativas quanto Rodrigo, que apenas acompanhava boquiaberto a gravação. Aquilo seria para o making of, mas as cenas mereciam dignamente ser inseridas no filme propriamente dito. Sophia não se intimidara nem um pouco com a presença do câmera, nem com o ambiente em que estava, entre refletores, fios e o ar gélido do estúdio. O que ela menos sentia naquela hora era frio, praticamente sobre o corpo de Herón, que nada resistia às suas investidas, mas parecia estar impressionado com a provocante audácia da garota. Enquanto ela fazia percorrer as pequenas mãos sobre seu corpo, ele misturava loucuras em sua cabeça, todos os pensamentos possíveis entre o tesão e a preocupação de estar fazendo algo errado. Pensou em divórcio, no começo de um caso com Sophia, na descoberta da polícia...ele poderia até ser preso! Mas num impulso, como se ele estivesse jogando toda a sua vida aos diabos, fez-se gerar apenas um pensamento na sua cabeça, aquele que pelo menos uma vez na vida você já teve. FODA-SE!

Tudo isso ocorria em frações de segundo, algo que o tempo não podia determinar, um best-seller erótico em slow motion. O relógio parecia ter decidido estacionar para registrar uma cena tão estarrecedora, mas também extremamente natural. Os dois pareciam ter uma intimidade secular, mas o que acontecia na frente do câmera-man era puro instinto. A direção do toque, a pressão do beijo, a intensidade da respiração, tudo se encaixava perfeitamente sobre aquele colchão. Até que...

- PAI!

Ninguém pode explicar qual sensação tomou conta de cada um que estava dentro do estúdio quando Maria Eduarda gritara na porta. Sua expressão era de choque, acompanhada da respiração ofegante pela recente corrida. Inácio vinha correndo atrás, fulo, imaginando qual seria o próximo desastre para que toda a sua idéia fosse por água abaixo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

OI, TIO - nono capítulo

Ainda com uma cara de sono, Inácio arrumava uma mesa com café da manhã: biscoitos, suco natural, pão, geléia, frutas, leite e café. Quando escuta sons de passos ecoarem do corredor, Rodrigo, entrando no estúdio com um travesseiro, avisa:

- Chegaram.

- Quantos?

- Não vi. Mas aquela guria é bem burra, falou o nome dela na portaria.

Pensativo, Inácio discorda:

- Não. Tem alguma coisa de errado.


***


- Isso aqui não ta com cara de estúdio de TV. Não tem movimento nenhum.

Sophia só olha para Herón, desconfiado, olhando para todos os lados, temendo ser visto. Para aumentar o seu nervosismo, a menina segura a sua mão, entrelaçando os dedos e sentindo o suor gelado que brotava pelos poros. Finalmente ela rompe o silêncio.

- A gente nem chegou ainda. Quer inventar desculpa pra ir embora? Eu deixo, vai.

Ele prefere nem olhar de volta. Se fosse Maria Eduarda que o respondesse daquela maneira, ele certamente já teria revidado com um tapa, ou com o clássico puxão pelo braço e a velha frase no pé do ouvido: “Em casa, a gente conversa”. Mas não, ele não faz nada. Não se sabe mais se ele está tomado pela ansiedade de estar fazendo algo errado, ou simplesmente hipnotizado por Sophia. Mas tudo indica que ele está em transe.

- Bom dia!

- Bom dia, gurizes! Ó, esse é o Herón.

- Bom dia Herón!

Herón só acorda do transe quando sua mão é quase esmagada por Sophia, e apenas responde.

- Bom dia, gente.

Enquanto os astros da gravação entravam no estúdio, a dupla produtora preparava os últimos ajustes. Pouco a pouco, Herón e Sophia foram se acostumando ao lugar. Sentaram na imensa cama de casal que eles não faziam idéia de como havia entrado pela portinhola da sala, e olhavam tudo em volta. Rodrigo traz a mesinha com a refeição, que é bem recebida, e volta para ajustar uma das câmeras com Inácio.

- Que tu acha desse cara?
- Não sei, conversa com ele. Mas depois, quando a guria for pôr a roupa.
- Beleza.

Ao mesmo tempo, Sophia fazia que dava um pão na boca de Herón, mas tirava e lhe dava enfim o primeiro beijo.

- Olha lá...vai, aproveita. Liga a câmera. Isso vai pro making of!
- Tá, tá. Ôôô, Inácio! Onde tu vai?
- Vou ali buscar a roupa no carro, já volto.


***


Maria Eduarda já contara mentalmente até mil umas mil vezes – isto ao atravessar o pátio da universidade esgueirando-se entre carros e árvores. Seu cérebro dividia a atenção entre fazer escapar-se da vista do maior número de seguranças possível e tentar raciocinar na hora do flagrante. Não sabia quem mais podia odiar, se era o pai que traía a honra da família, ou a melhor amiga que despudoradamente não tinha limites pra satisfazer suas fantasias. A ira era tanta que não sentira frio algum naquela manhã fria, mesmo usando uma bermuda jeans que protegia somente a parte superior das alvas coxas.

Quando chegava ao prédio que de longe vira os entrar, se atirou pra trás de uma folhagem grande que enfeitava a entrada do pavimento. Olhando entre os galhos, vira passar a sombra de um rapaz de mais ou menos 25 anos. Ele não caminha muito, pois entra no primeiro carro estacionado, deixando a porta aberta. Quando notou que ele estava distraído, saiu em disparada para as escadas da entrada do lugar. Porém, no meio do caminho, tropeçara e deixara cair seus óculos de grau no chão.

Sem pensar no perigo que corria, Maria Eduarda pára e analisa os óculos, que nenhum arranhão sofreu.


***


Ao mesmo tempo, Inácio ouve um barulho e sai do carro com uma sacola na mão. Ele fica de todas as cores possíveis quando vê uma garota parada aos pés da escadaria. Antes mesmo de poder gritar, ele a assiste como se estivesse congelado. Assim, ela olha pra trás, o vê e sai correndo prédio adentro.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Oi, tio - oitavo capítulo

Camisa social, camiseta, aquela da seleção, ou a xadrez? Casaco de lã, jaqueta, abrigo? Tênis ou sapato? Só sussurrou.

- Cacete!

É lógico que Herón estava em dúvida. Nunca havia feito um filme pornô na vida. E agora não sabia nem a roupa que ia usar. Na prática, não ia usar nada. Então camiseta básica, calça jeans e um daqueles sapatos tipo West Coast. Simples. Só um moleton por cima do ombro, pra caso esfriasse. Se vestiu com a luz apagada. Ao sair do quarto, quando os primeiros raios de sol tocavam a janela de seu quarto, ele olha Ângela coberta pelo edredom, apenas com a cabeça aparecendo, repousada sobre um travesseiro alto. Ele olha friamente, pois mesmo que tentasse, não conseguia nutrir nenhum sentimento por ela nos últimos tempos.

Resolveu tirar os sapatos e só pôr quando chegar lá embaixo, na garagem. O quarto de Maria Eduarda ainda era um obstáculo, pois a porta de madeira não se fechava. Sem fazer um barulho sequer, cruzou o corredor e desceu as escadas. O único barulho que fizera foi quando deixou escorregar das mãos suadas de nervosismo a chave do carro. Com o controle remoto, abriu o portão móvel e apenas soltou o freio-de-mão, fazendo com que o carro descesse sutilmente até a rua.
***

Antes mesmo da hora do despertador tocar, o telefone de Sophia já fazia o silêncio de seu quarto morrer. Uma mensagem. De Herón.

***

Maria Eduarda escuta um barulho, um rangido de porta, e logo se põe de pé. Já tinha tudo planejado em mente. Colocou uma roupa e novamente deitou na cama, tapando-se. Estava amanhecendo. Ela olha só relógio do celular: 7:06. Achou cedo demais para a gravação de um filme, ainda mais pornô. Escuta um barulho de carro na rua. O coração bate mais forte. Tinha perdido a chance? Não se perdoaria. Jamais.
Ficou em silêncio sob seu cobertor, quando ouviu outro ruído. Esperou uma conversa, ou algo que mostrasse que seu pai ainda estava em casa. Nada.

Depois de alguns minutos de puro silêncio, ela enfim ouve um barulho quase inaudível da porta do quarto ao lado se fechando. Acompanha pela fresta da porta uma sombra que se aproxima. Ela pára no meio do caminho, faz um estranho movimento, depois volta a caminhar. No mais absoluto silêncio, a sombra passa na frente do quarto e desce as escadas O sol já está alto quando Maria Eduarda escuta a porta do carro de Herón se fechar.

Ao dobrar a esquina, Maria Eduarda sai correndo pela calçada, com o coração saindo pela boca. Ela não pode perder Herón de vista. Um sonolento taxista, o único no ponto, acorda assustado ao ver aquela garota tão cedo na rua, e batendo furiosamente em seu vidro.
***
- Oi, tio.
- Oi, como tá bonita.

Herón vira-se para, ingênuo, beijar Sophia no rosto, mas ela se antecipa e o beija avidamente na boca. Com a mesma intensidade, ela o larga, se afunda no banco do carona e sorri.

- Tá esperando o que? A gente tem horário marcado lá.

Sophia nem termina de falar, quando um taxi passa por eles. Herón olha preocupado para o carro, mas vê somente o taxista, e nenhum passageiro.

***

- Pode se levantar.

Eduarda, que estava deitada no banco traseiro, ergue-se e questiona.

- Por que isso? O senhor não tá fazendo do jeito que combinamos.
- Calma, guria. Nisso eu sou macaco velho. A melhor forma de tu seguir alguém é indo na frente dela, e não atrás. Aprendi isso com tantos detetives que já passaram por esse carro. Ainda bem que tu sabe onde teu pai ta indo, se não íamos ter que inventar outra coisa. Mas é bom deixar eles entrarem primeiro.
***

- Bom dia. Seus nomes, por favor?
- Bom dia. Pablo e Jeniffer.
- Jeniffer?
- Sim, com jota, um ene e dois efes.
- Ah, gravação de documentário, né?
- Isso mesmo.
- Pode passar.

A cancela se abre e Herón e Sophia entram na universidade.

- Tu não tinha outro nome pra me dar, guria?
- Ué, não gostou?
- Não. E porque Pablo?
- Por nada, ué!
***
Logo em seguida, um taxi pára na entrada da universidade.

- Não quero me meter nessa história, guria. Parei aqui.
- Ta bom. Ó. Fica com o troco.

Maria Eduarda sobe correndo as escadas que acabarão na guarita de segurança.

- Bom dia. Seu nome, por gentileza?
- Ahnn...
- Seu nome, moça.
- Sophia.
- Uhum. Com efe?
- Não. Com pê agá.
- Não tá aqui.
- Ah...vim pra gravação.
- Ok. Pode passar.

Sentindo seu coração sair pulando pela boca, Maria Eduarda procura se manter calma ao atravessar o pátio da universidade. Mas o nervosismo é mais forte que isso.
***
- Estúdio de TV.
- Segurança. Pablo, Jeniffer e Sophia estão subindo pra gravação do documentário.
- Como assim? 3 pessoas?
- Sim. Pablo, Jeniffer e Sophia. Porquê?
- Nada não.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Oi, tio - sétimo capítulo

- Se a Duda te ligar, não atende.
- Ueh, pq?!
- Não sei. Acho que ela desconfiou de alguma coisa. Peguei ela mexendo no meu notebook hoje de manhã.
- :S
- É.
- Ela tah me ligandu agora.
- Não atende!
- Tah, tio.
- Deu com esse negócio de tio também.
- Tah. Tira a camisa?


Herón respira fundo, e sente seu coração bater mais forte. Naquela hora, parecia ter 15 anos, assim como Sophia. “Eu não estou fazendo isso.” Ele tira a camisa. Sophia, a um quilometro de distância, em seu quarto, o assiste pela webcam. Mesmo com um minúsculo pijama, e naquele frio que só as noites de inverno dão, ela começava a ficar com calor, logo que Herón mostrara seu peito nu pela câmera do notebook. Ela escolhera o curto modelito, usado apenas nas noites de verão, especialmente porque também ligara a sua câmera. Agora Herón também achava que subitamente a temperatura do quarto houvesse aumentado, ao ver aquele grande par de seios timidamente cobertos pela blusa do pijama.

- Tiu, precisu t contah 1 koisa.
- Conta, Sophia. Só não me chama de “tio”, me chama de Herón.
- Uiuiui :p
- Rsrs. Vai, conta.
- U filme d amanha.
- Ah, sim. Quero que tu me conte mesmo. Por que a Duda não pode saber de nada?
- Naum. Ela naum pod sonhah q tu vai fazeh.
- Mas por que?!?! Fala de uma vez!
- Tiu, tu ké fazeh filme pornô cmgu?


***

O telefone toca. Toca. E toca. Maria Eduarda tenta outras vezes, mas o telefone apenas toca. Irritada, ela atira o telefone na parede com toda a força, fazendo ele desmontar-se sobre o chão do quarto. O barulho do choque foi tão grande que Herón ouviu de seu quarto, mas nem conseguiu raciocinar direito. Seus olhos estavam arregalados, sua respiração estava ofegante e o coração batia descompassadamente.

Sim, ele fora longe demais. Longe a ponto de se deixar envolver por Sophia. Ele sabia que havia algo de errado quando soube que a conversa dos dois deveria ficar longe dos olhos de Maria Eduarda. Mas como um adolescente cego pela garota de seus sonhos, Herón se deixou levar por sua obsessão pela melhor amiga de sua própria filha única. Como um cão bem-adestrado, fez tudo como Sophia mandou, desde deixar a conversa em sigilo até fazer o inadmissível para um pai de família com princípios, responder o indecente convite ninfeto com apenas uma palavra: SIM.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Oi, Tio - Sexto Capítulo

- Oi filha. Nem vi que tu tinha chegado.

Maria Eduarda sente o coração pular quando escuta a voz do pai a poucos metros. Olha e vê ele parado na porta da varanda, apenas com o calção do pijama. Ela o olha de cima a baixo, fixando seu olhar no tórax e nas pernas. O que fazer? Ela tenta disfarçar.

- Pois é. Tô saindo já...
- Toma café comigo.
- N-não...já comi...

Saindo do quarto quase que correndo, Maria Eduarda tenta pôr as idéias no lugar, mas o ódio cego por Sophia toma conta de seu corpo. Entra no seu quarto e chora copiosamente, por dois motivos que quisera o destino que se unissem da pior forma possível. A traição da melhor amiga mais a relação da mesma com seu próprio pai, seu maior objeto de desejo. Por fora, ainda viria a traição de seu pai à sua mãe, se o ato realmente se concretizasse. Ela pensava nas piores consequências. Uma vez vira em um filme um homem que traíra sua esposa com sua irmã. A mulher traída, fora de si, matara o casal nu na cama de um motel, e depois tirara a roupa, subiria na cama e se suicidara com um tiro na cabeça.

O celular toca. Era a Sophia. Ela pega o celular e lê a mensagem. Eduarda iria em uma festa a noite com Sophia, mas a amiga resolvera ficar em casa, algo incomum. A raiva aumenta mais ainda.

Maria Eduarda passou o dia inteiro dentro do quarto. Entrara em uma pasta escondida em seu computador e começava a ver as fotos de seu pai na praia no verão passado. Em uma delas, ele estava abraçando-a por trás, sorrindo na areia. Ela lembra da foto, pois ficara excitada na hora. Daquele dia pra cá, deixou de sentir-se culpada por se acariciar pensando no pai, e era isso que ela fazia agora. Depois de trancar a porta do quarto, abriu um vídeo que ela fizera a poucos meses. Certa feita, entrou escondida com sua câmera digital dentro do quarto dos pais, e conseguira filmar de dentro do roupeiro um ato-sexual dos dois. A intenção era deixar a câmera gravando e sair, mas eles chegaram antes do previsto, e quase nus.

Já à noite, deitada em sua cama, Maria Eduarda articulava o plano que poria em prática no dia-seguinte. Ainda queria saber da desculpa que seu pai daria ao sair sozinho em um domingo, mas independente disso, já sabia o que fazer. Assim, pegou seu celular e ligou para Sophia.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Oi, tio - quinto capítulo

- Guria, tu é louca!!!
- Louca por que, ué?!
- Por que sim! Olha a merda que tu quer fazer!
- Ah, por favor! Eu que quero fazer! Me deixa! Tá parecendo a minha mãe!
- Tá, e quem é o cara?
- Ahn?
- O cara. Tu conhece ele?
- Conheço até.
- “Até”?! Sophia, quem ele é? Isso é furada, certo!
- Eu conheço?
- Mais do que eu.
- Me diz quem é, guria!
- Ahh...é o Pablo!

Maria Eduarda treme dos pés a cabeça quando ouve este nome. Pablo é o nome do motorista da van que levava Maria Eduarda e Sophia para a escola até o ano passado, e com ele Eduarda tivera sua primeira relação sexual, dentro do próprio veículo. Este caso não seria tão fora do comum se Pablo não tivesse 40 anos. A diferença de idade e a experiência sempre foram motivo da atração de Eduarda por homens desta faixa de idade. Logo depois do acontecimento, as duas amigas deixaram o transporte particular de lado, indo de outras formas para a aula.

- Tu não fala mais o nome dele!
- Tá, amiga...
- E quando é isso?
- Depois de amanhã.
***

Na manhã seguinte, num sábado frio e ensolarado de inverno, Herón abria seus e-mails tomando café-da-manhã sozinho na varanda de casa. Ângela ainda adormecia cansada após uma noite exaustiva de sexo com seu marido. Estava tranquilo até ele abrir um e-mail encaminhado por Sophia. Ele não acreditava no que lia, mas a cada linha que se passava, notava que o projeto era sério. Ela realmente o convidara para participar de um filme, com todas as palavras, por mais mal-digitadas que estavam. Era apenas uma pequena participação, de coadjuvante, em um trabalho do colégio, segundo ela. Sentiu-se aliviado com o convite, mas estranhou ao ler um estranho pedido de Sophia. Para ela, Maria Eduarda jamais deveria saber do convite, ou de nada que pudera estar relacionado a ele. Com data e hora marcada, a filmagem ocorreria fora das dependências da escola, o que lhe deixara mais intrigado.

Ao mesmo tempo que Herón se desloca ao banheiro, Maria Eduarda está chegando em casa. Atirando a mochila com roupas sobre o sofá, sobe as escadas para ver a mãe. Entra no quarto e nota que ela ainda está dormindo sozinha. Percebendo que a porta para a varanda esta aberta, atravessa o quarto silenciosamente, para não acordá-la. Queria conversar com seu pai, já que ele estava mais sociável desde a manhã passada, mas vê apenas seu notebook aberto e a xícara de café sobre a mesa. Enquanto ele não chegava, Eduarda resolveu ver o que ele estava fazendo.

A garota sentiu seu ar faltar quando começou a ler o e-mail de sua amiga. Como eles conseguiram contato? Esta pergunta era a menor, se comparada a todas as outras interrogações que surgiam uma sobre a outra. Depois delas, surgiam as hipóteses. Maria Eduarda não era nada burra para unir os dois fatos e saber que Sophia traíra sua confiança, tentando fazer uma atitude de tal nível. Sim, Sophia transaria com seu pai e ainda filmaria o grande feito. Além da raiva pela traição iminente, algo muito mais terrível fazia o sangue de Maria Eduarda ferver: o desejo doentio pelo próprio pai.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Oi, Tio - quarto capítulo

- Eaí, já conseguiu o teu par?
- Naum :S
- Então como tu quer participar?
- Ah, sei lá Axu q naum eras +.
- Tu não vai dar pra trás agora, né? Já estou com teu documento pronto na mão.
- Tah. Vo vê aki.
- Aceita.


Erotic Apple Filmes deseja lhe enviar um arquivo:
Projeto Filme.doc 75kb.
Aceitar(Alt+C) Salvar como...(Alt+S) Recusar(Alt+Z)

Sophia guarda o arquivo em seu mp3 e o lê mais de uma vez, com bastante atenção. Só de imaginar no que está prestes a fazer, fica nervosa, mas também excitada. O pior de tudo é que escolhera a pessoa errada, mas o passo já havia sido dado. Sempre achou o pai da melhor amiga um homem conservado, experiente, e se derretia por ele. Nunca conseguira se aproximar, que dirá conversar com ele, mas enfim apareceu a oportunidade. Na semana passada, foi abordada na saída da escola uma vez por dois rapazes, que lhe fizeram a proposta indecente sem meias palavras. Como pegaram pistas dela com seus colegas, ficou fácil convencê-la de participar da empreitada que iriam executar. Quando ela soube do que se tratava, gostou da idéia, mas ficou em dúvida se concordava ou não. Agora ela lia o arquivo que materializava a loucura que havia feito. Em letras garrafais, o título saltava para fora da tela.

1º PROJETO DE CINEMA PORNÔ UNIVERSITÁRIO DE PORTO ALEGRE

Ela não foi convidada por acaso. A garota procurada para filmar o primeiro piloto do projeto não precisava apenas ter um belo rosto e um corpo bonito. Além disso, deveria ser ousada e não ter vergonha ou inibição alguma na frente das câmeras. E Sophia era a única que se encaixava no perfil procurado. Ela foi achada pela dupla cineasta depois de ficar famosa na escola por supostamente ter transado no banheiro em horário de aula com um colega. Porém, havia duas condições para ela atuar: Antes de tudo, fazer uma carteira de identidade falsa, com a data de nascimento alterada – mesmo assim ficaria difícil de acreditar que aquela menininha com jeito de ter 15 anos na realidade possuía 18. Além disso, ela teria que arranjar um par para contracenar no filme. Quando ela falou que poderia convidar um homem mais experiente, os dois produtores concordaram na hora, mas pediram que ninguém mais soubesse do assunto. Agora ela conversava com um deles, para acertar os detalhes.

Quando ia desligar o computador de Maria Eduarda, Sophia recebe o convite de Herón para conversa. Ela aceita e logo após já lê.

- Oi.

***

Ao mesmo tempo, a poucos metros dali, Ângela sai do banheiro enrolada na toalha. Assustado, Herón fecha com força o notebook. Quando via sua esposa se vestir, notou que ela já viveu tempos melhores, fisicamente falando. Depois que Maria Eduarda nasceu, Ângela havia perdido a bela forma física no início do casamento, com belas curvas e um corpo enxuto. Depois da gestação, engordou e ficou flácida, fazendo perder um pouco do interesse do marido. Mesmo com cabelos grisalhos, Herón parecia ser mais novo que Ângela, embora fosse dois anos mais velho que ela.

Pouco antes de irem dormir, alguém bate na porta do quarto. Maria Eduarda entra no quarto.

- Manhê, vô dormir na Sophia, tá?

Herón sente seu corpo congelar na hora, não só por causa da frase, mas pela presença da visita, que encostou-se na porta da peça, olhando de longe.

- Oi, tia Ângela! Oi, tio!
- Oi Sophia! Podem ir, mas juízo, hein?!
- Pode deixar!

Sophia disse esta última frase olhando fixamente pro peito nu de Herón, que o cobriu rapidamente com o lençol, devolvendo o olhar. Maria Eduarda nota o olhar de seu pai para a amiga, mas fica calada. As duas saem do quarto e a porta se fecha.

- Que amor a Sophia, né, meu bem? Até que enfim a Duda arranjou uma amiga que presta..........Herón?
- É-é, sim...

***

Depois das garotas entrarem no taxi, Sophia olha seriamente para Maria Eduarda e diz fria:

- Amiga, preciso te contar uma coisa.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Oi, tio! - terceiro capítulo

Havia pouca coisa escrita naquele naco de papel.

Só uma linha.

Um endereço de e-mail.

Dela.

Da Sophia.

***

Se aquela manhã chuvosa havia passado devagar, a tarde estava se movendo aos arrastos. Repousado em pé entre as teclas do teclado do computador do escritório, aquele canto de folha de caderno criava cada vez mais interrogações na mente de Herón, todas ainda sem resposta. Porque aquele pedaço de papel havia chegado até ele? Foi por engano? Ou ela teria feito de propósito? E, se fosse de caso pensado, por quê? E o que ele deveria fazer? Entrar em contato? Tudo isso girava em torno de Sophia, uma garotinha que sabe-se lá quantos anos tinha, mas que tirara a tranqüilidade da cabeça daquele homem que já não esperava nada de interessante da vida e do mundo.

Herón suspirou fundo e tentou se acalmar. Abriu sua pasta, tirou seu pen-drive de dentro dela e o inseriu no computador. Procurou o arquivo desejado e o abriu. Dois minutos depois, quando já estava bastante concentrado no filme pornô que assistia, o celular toca. Uma mensagem. Era a Ângela. “Vem me buscar? Bjo. Te amo”. Sussurrando um palavrão, ele se vê obrigado a assistir a loirinha de 16 anos e seus dois amigos em outro momento.

Naquele fim de tarde de inverno, a chuva ficara mais intensa, fazendo Herón ficar preso em um extenso engarrafamento na Plínio Brasil Milano. Sem pressa, ele aumenta o som do carro pra se distrair, mas o tiro saiu pela culatra, mais precisamente quando a voz de Renato e Seus Blue Caps soou “Oh, minha menina, faça-me um favor! Larga essa boneca e vem brincar de amor!”. Ele desliga o rádio e guarda o papel amassado no bolso interno do casaco.

Saiu do supermercado em silêncio, ouvindo todas as coisas inúteis que Ângela havia feito no dia. Resolveu ligar o rádio novamente, e agora Bob Dylan fora seu amigo em Like A Rolling Stone. Não ouviu ela falar que havia reencontrado uma amiga da época da faculdade, nem que reservara uma suíte em Bariloche para ir nas férias de julho. Ficou absorto entre as músicas até chegar em casa.

Depois de recolher as compras, Herón saiu da cozinha sem escalas, direto para seu quarto. No meio do caminho, apenas ouviu Ângela falar à distância com Maria Eduarda, que nem fizera o trabalho de sair do quarto. Ele ia entrar para conversar um pouco, mas como a porta estava fechada, resolveu mudar de idéia.

Herón esperou a esposa ligar o chuveiro para pôr em prática a decisão que já havia tomado no caminho da vinda: pegou o casaco e tirou o papel rasgado do bolso. Abriu seu notebook sobre a cama e resolveu mandar o maldito e-mail. Ficou em dúvida no que poderia escrever, mas apenas teclou “Oi. Quem é?”. “Vou me fazer de louco”, pensou.

Não completaram 2 minutos, o e-mail foi respondido. Um arrepio na espinha caracterizou seu nervosismo. Ele resolveu abrir e ler. Assim foi a resposta quase não decifrada:

Soapksopakaopskaosapka
U tiu eh mtu bobaum
Pensei q ia me egnorar
Me add. To on.
Bjokas! S2

***

Enquanto isso, no quarto ao lado, Maria Eduarda estava deitada na cama, falando no celular com seu ficante. Ao mesmo tempo, a poucos passos dela, Sophia estava no computador da amiga com um sorriso malicioso nos lábios.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Oi, tio - Capítchulo 2

Oii, tíio! Amigaaaa!

Enquanto Maria Eduarda dava um abraço forte na colega, Herón apenas baixou a cabeça e arrancou o carro. Começou a dirigir desconcentrado, pois todas as suas atenções estavam voltadas para Sophia, que perdia um quilo a cada vez que era olhada pelo espelho retrovisor. Quase bateu o carro em uma sinaleira, pois estava se decidindo se olhava para os grandes e belos olhos claros da amiga da filha, ou para seus seios, belos e muito grandes, sob a blusa branca e molhada do colégio.

- Que chuva, né tio?
- É...si-sim...que chuva...

Sob um estridente ronco de trovão, as duas garotas se despediram de Herón e saíram correndo do carro, se abrigando na entrada do colégio. Mas isto não aconteceu antes de Sophia passar o olhar pelo espelho e ver os olhos de Herón maliciosamente fixos em seu par de mamilos, que estavam salientes após a chuva e o frio de dentro do carro. Ela apenas baixara a cabeça e fizera que não tinha visto.

- Me liga depois pra mim buscar vocês, filha.
- Se tiver chovendo, eu ligo!
- Tá!

Chega no escritório, liga o PC, vê os e-mails, pega o jornal e lê o que mais interessa, aperta F5, guarda o caderno de empregos na pasta, toma café, aperta F5, vai pra reunião, leva bronca e se defende, volta, aperta F5, olha pro relógio e vê que é quase meio-dia. Por mais que a garota que recém havia conhecido não saíra de sua cabeça, até que a manhã se passara bem rápido. Do trabalho para a escola da filha, imaginava se era errado pensar em uma garota tão nova assim. Infelizmente, para um quarentão casado e com uma filha da mesma idade, de fato era errado pensar. Deu uma olhada pro retrovisor, mas agora era pra ver se os cabelos brancos eram perceptíveis. A esposa nunca deixou pintar o cabelo (sua aparência era uma das únicas coisas que ela sabia dominar) e ele acabara deixando de lado as alvas melenas. O único cuidado que ainda tomava era não largar a natação, que não o deixava criar barriga, mas sim ombros largos e porte atlético. Disto ele se orgulhava.

Parou o carro na frente da escola e ligou o pára-brisa, pois a garoa, ao invés de cessar, resolveu aumentar de força até virar chuva de verdade. As garotas entraram rapidamente no carro. Eduarda estranhou o sorriso de Herón, tão raro nos últimos tempos.

- Pai tu leva mesmo a Sophia em casa?

Ele olha para a garota e responde aumentando o sorriso.

- Claro que sim!

Foi conversando o tempo todo com as garotas, para espanto de sua filha. Sophia era o principal alvo de suas perguntas, que respondia com igual simpatia, caracterizada por sua voz macia e por sua delicadeza ao falar. Em um momento, as gurias pararam de conversar com Herón e começaram a cochichar, quando Sophia mostrava uma folha para Maria Eduarda. As duas ora riam baixinho, ora falavam sério, parecendo preocupadas. Assim, o tempo passara rápido, e quando ele vira, ela já atravessava a calçada correndo em direção à guarita do condomínio, com o caderno sobre a cabeça. Mas antes dela sair em disparada do carro, ele sentira a pequenina mão dela passando sobre seu pescoço. No mesmo instante, um arrepio cobre sua espinha, mas que não foi causado apenas pelo contato da pele, ou pelo desejo repentino que sentia pela garota. Alguma coisa havia caído entre sua camisa e suas costas, e não só provocou o arrepio, como também começara a coçar. Já de volta à avenida, resolveu procurar o que era. E achou algo.

Um pedaço de papel amassado.

Mas não era um pedaço de papel qualquer. Era pautado e com desenhos de flores e adornos, típico do caderno de uma adolescente. Quando ia meter bronca na filha sobre sujar o seu carro com porcarias, ele congelou. Olhava para o papel diversas vezes, até acreditar que o que estava escrito naquele pedacinho de papel era verdadeiro.
Em breve, o próximo capítulo.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Oi, tio! - Capítulo 1

Não bastasse o constante engarrafamento quase paulistano que aumentava com a proximidade das 8 horas da manhã, ainda veio a densa chuva para despertar o mau-humor de Herón, apenas 15 minutos após ele acordar. Agora ele assistia pelo retrovisor sua filha, que havia se atrasado para a aula e o intercedera por uma carona, acordando-o de um profundo sono. “Guria mimada”, ele sempre a xingava na frente da esposa, que a defendia sempre. “O que custa levar ela ali um instantinho?” Como era homem que não apreciava perder nem discussão, também acabava brigando com a esposa, que depois ficava quieta e pensativa, apenas observando-o marchar bufando pra algum canto do apartamento. Também pudera: faltava 1 mês para o aniversário de 20 anos de casamento, e não seria agora que ela iria desafiar a já habitual ira do marido. Como já tinha prática para desarmar o gênio do marido, não estava a fim de pôr em risco a sustentação da família, a construção da nova casa da praia em Atlântida e a mensalidade da escola e do curso de inglês de Maria Eduarda.

- Paai, tu leva a Sophia juntoô?

“Era só o que me faltava!” - Onde é que mora essa Sophia?!

- Ali perto do Parcão.

E agora ali estava ele, em plena Goethe, irritado com a vida que levava nos últimos anos, com a submissão exagerada ao chefe, com a crise iminente na empresa onde trabalhava e todos os outros problemas profissionais. Esperava o apelo e a compreensão da família, mas cada vez se sentia mais injustiçado pelo pai que apenas gastava seu dinheiro, e pela esposa que bajulava cada vez mais a única filha do casal.

Entrou em uma rua residencial não para escapar do movimento, mas para resgatar a caroneira da chuva. Parou em frente a um grande condomínio, e mirou vindo do portão uma figura indefinida entre os grossos pingos de chuva que castigavam a capital no início da manhã. Quando a porta do banco de trás se abre, seu semblante de raiva e stress sumiu como num passe de mágica, aliviando a tensão de sua têmpora e fazendo seu queixo desabar.
Em breve, o próximo capítulo.

sábado, 28 de novembro de 2009

Estamos de volta!

Ôpa, gente!

Sim, estamos de volta, depois de muitas semanas de abstinência. Também pudera: pensei que, mesmo com zilhões de compromissos, conseguiria dar atenção ao blog. Ledo engano.

Ainda bem que no tempo que fiquei afastado daqui, preparei um material que vai começar a ser apresentado amanhã nesta mesma página. vem aí mais uma produção independente do nosso blog.

Aguardem...

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Os Apaixonados

SALGADOS: R$2,30
FRITAS PORCAO PEQ: R$ 5,00
FRITAS PORCAO GRANDE: R$10,00

Nestor nem olhava mais a placa do barzinho. Ia direto na tia e pedia:
- Uma porção grande.
E voltava pra sua mesa, onde estavam os seus amigos.
Comiam as fritas, conversando sobre o carro de um, o findi de outro e a Libertadores.
Depois voltavam pra sala de aula.
Rotina.

Só que esta noite foi diferente.

Do outro lado da praça de alimentação, estavam as gurias do 5° semestre de educação física. E entre elas, Rebecca. Mais arrumada que de costume, bem maquiada, saiu da mesa decidida. "Já volto". As amigas já sabiam de tudo. Elas sempre sabiam de tudo. Por isso, apenas o que se ouviu foi apenas um "boa sorte, amiiiiga" de uma ou duas delas. Quando ela já tinha ido, um ainda falou: "Tadinha da Rebecca".

Os pátios e os corredores da faculdade já não tinham o mesmo movimento de minutos atrás, e a maioria das pessoas já estavam nas salas de aula. Assim, Nestor caminhava sozinho em direção ao banheiro, enquanto seus amigos já haviam ido para a sala de aula.

A passos tétricos e apressados, Rebecca tropeçava no salto do sapato que estava desacostumada a usar. Virou o pé umas duas vezes no meio do caminho, mas não hesitava em parar um instante que seja. Tudo para alcançar o seu objetivo: o banheiro masculino, onde Nestor sempre ia no fim do intervalo. Tremia de nervosismo e suas mãos estavam geladas pelo vento frio que cruzava gelado pelos pátios da universidade.

Passado algum tempo, Nestor saiu no corredor sacudindo as mãos ainda um pouco molhadas do banheiro. Quando saiu em direção ao pátio, sentiu um puxão forte no punho esquerdo. Ao virar, impressiona-se ao ver a mesma garota que ele viu no dia anterior, só que agora muito mais linda, maquiada, uma princesa, e a dois palmos dos seus olhos, com um sorriso confiante e um olhar fulminante, de quem planeja algo com segundas intenções.


Quando foi ensaiar algo para dizer, Nestor foi puxado pela nuca e foi beijado com força por Rebecca. Não soube quanto tempo ficou ali, pois nem notaram o tempo passar. Nenhum assistiu a aula depois do intervalo. Esqueceram da aula, dos amigos, do ônibus que pegariam pra ir pra casa. Tudo passara de uma forma em que não havia mais nada ou ninguém em volta. Não fosse um segurança abordá-los antes dos portões fecharem, certamente seriam esquecidos.


Se despediram apaixonadamente desajeitados, pedindo desculpas ao guarda engravatado. Nestor, incrédulo ainda com o que tinha acontecido, saiu às pressas, numa direção contrária à Rebecca, sob ordens do sentinela. Mas o sorriso no rosto era escancarado e bobo, como os seus sentimentos que não tinha pra quem demonstrar, nas já quase desertas ruas por onde caminhava.

Rebecca ficara pra trás, precisando dar explicações ao guarda. Ao sair do lugar onde estavam, viu uma folha de caderno bastante amassada, e um pouco molhada pela garoa que começava a cair. Juntou-a e desdobrou. Em um lado da folha havia um desenho perfeito, de um profissional, que ela jurava ser dela. Artesanal, feito à caneta, mas adorou. Mas será que era seu? A resposta veio quando notou que havia algo escrito no verso da folha. Um pequeno soneto, notou. Seu coração batia mais forte a cada linha que lia. 7 linhas.

Repentinamente penso em um novo amor para viver
Extremamente singelo, sem segundas intenções, mas gostoso
Beijos, abraços, ou um único e forte abraço pra esquecer
Enfim, nada vulgar ou erótico, apenas carinhoso
Crescente a cada hora que passa, é difícil esquecer
Contando os minutos que passam apenas pra te ver
Ainda sonhando para com o meu amor te entorpecer

Ao final da última palavra, deixou uma lágrima cair e confundir-se com a chuva que começava a ganhar força. Sorriu mais feliz com a decorrência dos fatos do que orgulhosa com a ousada decisão que tomara. Armou a sua sombrinha roxa e foi embora, ainda tendo dificuldades pra andar sobre o salto. Mas agora nada mais importava, pois tinha certeza de que a sua vida a partir de agora seria outra. Completamente diferente.

terça-feira, 9 de junho de 2009

A Apaixonada

Ao entrar em seu apartamento, Rebecca suspirou. Atirou a mochila em cima da mesa, tirou os tênis e se jogou no sofá, por cima das almofadas. Faltavam apenas alguns dias para 12 de junho e sua ansiedade aumentava. Não queria passar mais um dia dos namorados sozinha, assistindo filme e comendo brigadeiro no seu apartamento. Todas as suas melhores amigas estavam namorando, ou seja, ninguém para sequer dividir o choro. Não bastasse isso, ainda o orgulho a feria por dentro. Nunca precisara chegar em nenhum garoto, pois era bonita, embora a sua popularidade não chegasse aos pés das famosinhas da turma. Mas estava doente por um cara que jamais havia lhe dado bola. O Nestor.

Não era nem o mais bonito, nem o mais popular da faculdade, pois isso não é Sessão da Tarde. Era um carinha na dele, sem chamar muito a atenção, exceto pelos cabelos compridos que caíam até o ombro, "o charme dele", Rebecca dizia. Também era meio desligado. Parecia que dentro da sua mesma jaqueta jeans de todos os dias existia outro mundo, só dele. Era tímido: se apaixonava por umas 3 gurias por dia, mas só conseguia se aproximar de uma por mês. Isso ela sabia, pois uma ex-colega dele no colégio agora estava na mesma turma que ela. Ou seja, já havia sido feito todo o tipo de interrogatório sobre o pobre rapaz.

Parecia criança: quando chegou em casa, só pensava nele, e em mais nada. E então, no mesmo momento que Nestor zapeava na tevê em sua casa, Rebecca ligara a sua no seu apartamento. Morava sozinha, desde quando veio de Vacaria morar na capital por causa da faculdade, há dois anos. Mas jamais havia se sentido tão sozinha. Abraçou forte contra os seios a almofada que estava mais próxima. Assim, como num passe de mágica, assistiu algo na televisão que a deixou emocionada.

O que ela viu?
Aqui está.




Pois é. A projeção de Nestor em sua mente fazia o desejar cada vez mais.
Decidiu tomar uma atitude.
O dia seguinte era decisivo.
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Rebecca estava tão apaixonada por Nestor que já tinha escolhido uma música para o casal que nem existia. Assim, quando se orgulhou da atitude que acabara de projetar, cantarolou baixinho, quase sussurrando, esta música.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

O Apaixonado

Essa história aconteceu ontem ainda...

Desde que a viu, decidiu que era a mulher da vida dele. Os amigos já estão acostumados, pois toda a semana é a mesma coisa. Mas ele dizia que agora era diferente. Não sabia o porquê, mas que era diferente, ah era. Desligou-se do pote de fritas e a seguiu com os olhos por toda a extensão da praça de alimentação, como se tirasse cada peça de roupa dela com os olhos. Até o fim do intervalo, só falava dela, como toda a vez que via uma guria que o surpreendera. Na sala-de-aula, pegou a última folha do caderno e a desenhou, com a caneta mesmo. Azul. Detalhou-a com a caneta vermelha. “Perfeita”, sussurrou.

Morena de pele clara, com mechas vermelhas no cabelo, que ondulava ao natural até pouco abaixo dos ombros. Jaqueta jeans por cima da baby-look branca, calça jeans azul e all-star cinza xadrez. E uma manta colorida pendurada no pescoço. Linda. Magra, com suas curvas. A mochila com o nome do curso já dava uma pista: educação física. Mas o que lhe encantou mesmo foram os olhos castanho-claro que, acompanhados dos óculos de grau, apoiados em um fino e bem desenhado nariz, davam um destaque diferente, algo que o encantou. Isto sem contar as suas sardas no rosto, que o desconcertara. Sorriso de aparelho, ele notou quando ela riu de alguma coisa que a amiga falava. Amou. Assim, Nestor esculpiu sua amada em seu caderno.

Os amigos ainda duvidam, mas Nestor havia se apaixonado. Parecia criança: quando chegou em casa, só pensava nela, e em mais nada. E, como todo o apaixonado, qualquer coisa que via o fazia lembrar do seu amor, equilibrado em um pedestal. Assim, ligou a tevê. Queria ver um pouco de desenho animado. Mas o que viu, fez aflorar ainda mais o seu amor.

O que ele viu?
Veja você também.




To be continued...
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Para o Love Vitrola, vamos pôr uma música que o Nestor tocou no violão.
Adivinha pra quem era?
Vale a pena assistir até o fim.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Oasis encanta em noite histórica


Por: Gabriel Marquez


A constatação feita por mim mesmo no momento da saída para o show resumia o sentimento e a expectativa para a noite. Ao fechar a porta de casa, olhei para minha namorada e disse:
- É como se eu estivesse indo ver um jogo de futebol, com a certeza de que meu time ganhará e jogará bem!
Nada menos que um momento histórico. Era isso que eu, a Fer, e mais as 15 mil pessoas presentes no Gigantinho presenciariam. Desde que começaram a fazer sucesso na ilha britânica no meio dos anos 90, o Oasis não pisava em Porto Alegre pra cantar, tocar e mostrar porquê são adorados por muita gente.
Chegando nos arredores do Complexo Beira-Rio, os primeiros sinais da movimentação dos que estavam à procura do puro rock'n roll do grupo inglês. Ao entrar na fila, a primeira cerveja para aquecer, além da já calorosa companhia dos demais seguidores da banda.
Já dentro do Gigantinho, a espera demorada fazia a ansiedade aumentar, e para diminuir essa tensão, é claro, mais cerveja, beijos na namorada, interação com os companheiros de arquibancada, empurra-empurra na fila de passagem em direção aos banheiros, e tudo mais que se tem direito em um lugar onde a ordem nem sempre é fundamental.
Com 40 min. de atraso, a Cachorro Grande subiu ao palco para, a princípio, distrair a massa. Acabou sendo um baita show, quase valeu o ingresso por si só (tá, mentira), com a veia do rock gaúcho em todas as músicas, e o orgulhoso Beto Bruno falando a todo momento o tamanho da honra que era abrir o show do Oasis aqui em Porto Alegre, assim como em todas as outras cidades, mas aqui mais ainda por se tratar da sua terra. Não foi à toa que Liam se apaixonou pelos caras depois da turnê.

Gigantinho praticamente lotado!

Enfim, povão enlouquecido, a tão mal-falada acústica do Gigantinho já posta à prova, e aprovada, agora que venham os Gallagher!
Eram 20:40 quando o Gigantinho rugiu à entrada da banda. Ali estava o Oasis!!! Liam e Noel Gallagher, Gem Archer, Andy Bell, Chris Sharrok, e Jay "Jesus" Darlington. Era chegada a hora!!
A primeira canção da noite, "Rock'n Roll Star" pôs fogo na platéia, desde a primeira fila até o ultimo degrau de arquibancada. Todos pulavam e cantavam junto com o vocalista que aparentemente fazia força para levar a voz ao microfone. "Lyla", "The Shock of the Lightning", "Cigarretes and Alcohol" completaram a primeira parte do show.

Liam sorri para o público com o pandeiro meia-lua, que momentos depois seria arremessado à multidão


Como em uma partida de futebol, em que o time sente o apoio da torcida e passa a jogar com mais vontade, o Oasis se viu diante de uma platéia que em nenhum momento deixou-os sozinhos. Todas as músicas foram acompanhadas, e o descontrole era geral diante dos fãs. Nas músicas mais calmas, a comoção tomava a todos, e via-se gente realmente emocionada pelo lugar. "The Masterplan"e "Slide Away" foram acompanhadas de muitas lágrimas.
A energia voltou com "Morning Glory", outro ponto alto da noite. Nem seria preciso falar nada sobre a talvez mais conhecida música da banda, mas o relato deve ser feito: quando soaram as cordas do violão de Noel Gallagher, anunciando a bela "Wonderwall", houve histeria no ginásio. Liam Gallagher tratou de conduzir a música até o refrão, e como um camisa 10 que serve os seus atacantes com maestria, afastou-se do microfone e deixou que o público fizesse o resto. Sensacional.

Descontrole já está formado: platéia de Porto Alegre pulou e cantou o show inteiro


No bis, mais 4 músicas, entre elas "Don't Look Back in Anger". Outro registro imprescindível: durante o refrão, Noel Gallagher abre mão de cantar para ouvir as 15 mil pessoas entoando o seu hino, porém na última estrofe, ele fez um sinal, como quem pede: "deixem eu cantar agora". Não foi atendido. "Falling Down", "Champagne Supernova" e "I am the Walrus", dos Beatles, fecharam a apresentação realmente histórica do grupo de Manchester.
Como eu esperava ao sair de casa, o Oasis jogou com vontade, venceu e convenceu, pra alegria da sua torcida.

Noel: "Say it laugh, and sing it proud todaaaayy..."

PS1.: Antes do show em Porto Alegre, o líder da banda Noel Gallagher escreveu o seguinte em seu blog: "Não entendo o que estamos tentando provar tocando em lugares como Curitiba e Porto Alegre. Os shows deveriam ser apenas no Rio de Janeiro e em São Paulo." Não se agradou de Curitiba, por causa do público e do local do show.
Depois do show de Porto Alegre, postou: "Eu retiro tudo que eu tinha dito. O show de ontem a noite foi incrível. Eu digo show, não tenho certeza se eu ouvi alguma coisa, mas a noite foi incrível. Incrível. Incrível."
É amigo...

PS2.: O show de Porto Alegre foi o único comparável com o de Buenos Aires no quesito "descontrole" do público. Lá a platéia era mais inflamada do que aqui. O problema é que lá o show aconteceu no Monumental de Nuñez, lotado de 50 mi pessoas. Aí não dá pra comparar, perde a graça a brincadeira...



abertura do Show de Porto Alegre!





Bônus: Um pedaço da apresentação em Buenos Aires.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

NVB no show do Oasis!!!

Fala aí, gurizada medonha!!!

Estou muito feliz com o andamento do blog. Muito mesmo. O que no início seria apenas uma brincadeira de quem não tinha o que fazer (sendo bem sincero), atualmente está ganhando ares de ser uma coisa mais séria. Sem hipocrisia.

Primeiro assumimos a nossa verdadeira realidade, de palpiteiros. Antes, futebol. Agora, tudo o que apareça de louco na nossa cabeça. Propaganda, guerra, fotografia, mais futebol. Até contar histórias, nós contamos. Mudamos também o layout do blog, deixando-o mais interessante para os olhos alheios e deixando um visual meio tosco pra trás. Adicionamos notícias correntes à sua margem direita (caso ainda não notaram, movam suas atenções pra cá >). E por aí vai.

Mas como muita coisa na vida é inovação, resolvemos rachar o seu bico de vez! Como sabem - ou não - a banda Oasis vai tocar nesta terça-feira na Capital, lá no Gigantinho. E então, em uma despretenciosa conversa com o nosso leitor-colaborador (e nas horas vagas amigo) Gabriel Marquez, criamos a maior inovação do blog desde a idéia de seu criativíssimo nome! O Não Vale Bomba terá um correspondente oficialíssimo no show do Oasis!!!

Sensacional! Gabriel Marquez será o nosso repórter no show do ano em Porto Alegre. Comentários, registros e toda a cobertura que só o Não Vale Bomba pode te dar. Aguarde e...chora, concorrência!!!

Pra gurizada entrar no clima, vai abaixo uma palhinha do que vai rolar lá no ginásio do Gigantinho. Cigarettes & Alcohol e Wonderwall. Divirtam-se!!!







Um abraço a todos!
Fui!